Alleluia, succubus

Quanto mais eu me esforço, menos minhas pernas respondem. O que começou com uma corrida à todo vapor agora é um tropeço sem fôlego e sem ritmo. A única coisa que meu cérebro consegue pensar é "ela vai me alcançar, ela vai me alcançar, ela vai me alcançar." Tropeço numa pedra - de um tamanho tão mínimo que numa situação normal seria chutada longe por mim. Caio, rolo por uns 2 metros e bato a cabeça num carrinho de mão muito velho e enferrujado. "Será que eu corri até algum lugar habitado?". Ah, esperança vã.
Não tenho forças pra me levantar, muito menos para continuar correndo. Levo minha mão até minha testa e noto um corte onde bati com a cabeça. O sangue empapa as pontas da minha luva e seu cheiro ferroso é absorvido pelo meu nariz. "Que morte patética, fugindo de algo que só eu vejo... Achei que minha morte seria muito mais glamurosa, uma overdose talvez, qualquer coisa! Pelo visto, minha morte será tão desprezível como eu fui minha vida toda..."
Chega de auto piedade. O barulho de passos arrastados me tira do meu devaneio pedante e me faz focar os olhos na escuridão que me cobre. Com a cabeça tonta e a hiperventilação, fica complicado discernir de qual lado vem o som. Mas nem preciso saber de onde vem, pois sei quem o provoca. É ela. Ela está vindo e vai me matar. E eu não posso evitar.
Começo a lembrar de como todo esse tormento começou. Uma mulher linda, uma boate cheia e o melhor sexo que já fiz. Súcubo ganhou um novo significado, chamado Marcela. Que com seus longos cabelos negros e olhos penetrantes, me seduziu para o mais fundo possível de seus desejos - e para seu apartamento. Marcela é a mulher que eu sempre idealizei nas minhas fantasias, e a mesma que trouxe minha ruína.
O que ela fez comigo tem um nome, que eu não sei pronunciar pois não falo latim, então vamos chamar de filha da putagem. É um ritual secreto, de uma seita secreta, que consiste em "tirar a pureza" de uma jovem, levá-la pra cama e assim selar sua alma para o espírito em questão. Pode ser o que lhe prometeu dinheiro, fama, ou o amor eterno, o preço é apenas uma alma desavisada que você cruzar o caminho. Marcela precisava de alguém para oferecer a Súcubo, pois ela precisava de sua ajuda. Ela escolheu a mim. Nesses 9 dias que se passaram desde nossa "noite feliz", eu venho sendo atormentada pouco a pouco por visões, pesadelos, vultos e sussurros. O que no início eu pensei serem alucinações, foram se tornando cada vez mais palpáveis até eu me ver desesperada, abraçando minhas próprias pernas e chorando como criança. Nessa hora, Marcela toca a campainha da minha casa (que eu nunca passei o endereço) e entra, me conta de seu ritual e diz que só me conta a verdade pois se afeiçoou de mim. Porra, Marcela. Normalmente as pessoas não vendem a alma de quem elas se afeiçoam, caralho!
Ela vira as costas e sai, me deixando mais em choque do que eu já estava. Desde então, tentei de tudo: padres, benzedeiras, sal grosso e erva de todo o tipo. Até exorcismo, que foi o motivo que me fez estar nesse meio de nada agora. Um padre não ortodoxo conhecido na família disse que conseguiria me exorcizar, e viemos até uma antiga chácara de amigos para o processo. Tudo corria bem, até o padre ser atirado contra a parede e ter seu pescoço quebrado em um simples segundo. Hoje é o nono dia, dia da coleta. É o dia em que ela vem mais forte, pois ela vem pra levar. Então eu corri. Corri o mais rápido que pude. Corri o máximo que Meus pulmões aguentaram.
Mas aí, aconteceu que eu cai. Agora cá estou, narrando minha morte para o nada, com a mesma falsa sensação de importância de Brás Cubas quando narrou suas memórias. Pelo menos ele tinha um bônus: o charme de já estar morto. Fazer isso moribundo, num campo escuro no meio da madrugada não tem o mesmo impacto.
É, chega de me lamentar.
Finalmente a vejo.
Asas se abrem e alguém pousa a poucos metros de mim. Seu corpo esguio parece atraente em sua silhueta, até ela se aproximar e você poder ver seus dentes afiados, olhos reptilianos injetados de vermelho e narinas que são apenas furos no rosto. Ainda assim, ela me atrai.
Eu só quero chegar perto dela, só isso..
A morte já não me parece tão ruim...
Ela parece tão linda, ela... Parece Marcela.
Me dou por mim já em pé, usando o resto das minhas forças para encostar em Súcubo.
Ela me aguarda com braços abertos. Eu só preciso... Abraçá-la...
No momento que eu a abraço, sinto tudo em mim derreter-se lentamente. Pulmões, cérebro, coração. Alma.
"No que porra eu me meti?"

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