Dos Males de Amar Intensamente


Era uma vez uma menina. Essa menina tinha olhos castanhos, o cabelo cada mês de uma cor e o coração do tamanho do mundo. Ela abraçava todas as pessoas, causas e bichinhos abandonados que você possa imaginar. Esse era seu dom — e também sua ruína.
Sempre disseram pra ela que pessoas assim são amadas por todos, tem muitos amigos e são sempre felizes, mas ninguém a avisou da dor visceral que ela sentiria na maior parte do tempo. Realmente ela tem amigos, ela é amada pelos que tem e ela é feliz (as vezes), mas ela descobriu que a felicidade não passa de uma alegria, que o conceito de felicidade é utópico pois ninguém consegue ser alegre por muito tempo não. Não é pessimismo nem nada, sabe? É só a experiência de quem, mesmo com pouca idade, já carregou mais peso do que podia.
A vida tem uma mania incompreensível de te dar algo e depois tirar subitamente. A vida fez muito disso com essa menina, abusou do poder de dar e tirar, abusou do viver e morrer. Ela não perdeu tantas pessoas fisicamente, mas psicologicamente sim. Ela perdeu a si mesma, inclusive. E achou. E perdeu de novo, incontáveis vezes. Essas perdas todas fizeram com que ela saiba fingir bem quando está perdida, a ponto de ninguém perceber a não ser que ela diga. Mas quando alguém foge, foge sempre pra algum lugar. Ela não. Ela foge pro primeiro caminho que aparece na frente, sem ter a mínima ideia de onde esse caminho vai dar. As vezes melhora, mas geralmente ela cai num buraco bem fundo no meio do caminho e leva uns bons meses pra conseguir sair.
A pior parte de ter um coração tão grande é que ela se preocupa tanto em dar amor que esquece que ela também precisa receber. Ela acha que seu amor compensa o amor dos outros, então ela não faz questão nenhuma de ser amada. Ela quer? Claro, assim como todos. Mas ela sabe que poucas pessoas são como ela, e se a pessoa não a amar na mesma intensidade, melhor que nem o faça. Por isso ela tem poucas amizades verdadeiras. Só duas ou três pessoas que ela conheceu nesse mundo de meu deus se doam pra ela na mesma proporção com que ela se doa.
Pode soar como um clássico drama adolescente, mas no fim é a verdade. Os adolescentes só escracham aquilo que todo adulto sente, mas não admite. Estamos aqui pra isso. Aliás, não pra isso, mas pra contar a história dessa menina, a menina que cometeu o pecado de amar demais e, ainda assim, não conseguira viver se não fosse assim.

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