Carta de Uma Rebelde - Giulia Rizzuto Rosa
“São Paulo, 22 de Fevereiro de 2013.
Queridos mãe e pai,
Vocês devem estar se perguntando: “O que Jaqueline aprontou dessa vez pra mandar uma carta após tanto tempo?”. Eu não chamaria de aprontar, mas sim de aliviar. Aliviar a vida de vocês, tornar tudo mais fácil. Afinal, com uma filha problemática como eu tudo se torna mais difícil, não é mesmo? Pois é, por isso decidi ir embora. Não temporariamente, mas pra sempre. E por quê? Bom, todos nós sabemos que há 23 anos sou a ovelha negra da família, ou seja, desde que nasci. Nunca nada que eu fiz foi certo pra vocês, eu sempre “denegri a imagem da família Bustamante”. Desde as tatuagens, raves e shows de rock até os amigos e as saídas ás 2 da madrugada. Desde meus cigarros até minha pequena adega escondida no meu closet. Eu nunca fiz nada certo. Para vocês, eu deveria ser perfeita como minha irmã Clara: notas irrepreensíveis, delicada, recatada, obedecendo-os cegamente e sem nenhuma opinião formada por si mesma. Eu deveria ser uma bundona, com o perdão da palavra. Mas não, eu decidi ser diferente. Eu decidi provar pra todo mundo que o fato de eu ser de família rica não me faz medíocre como vocês. E o mais difícil é que, apesar de tudo isso, apesar de vocês me odiarem (ou odiarem meu jeito), eu amo vocês. Mais do que eu deveria.
Lembram quando eu quis montar uma banda de heavy metal e vocês me proibiram, dizendo que era coisa de drogados? Pois é, eu tenho uma agora, e eu não me drogo. Lembram quando vocês me disseram que se eu fizesse alguma tatuagem, além de não poder trabalhar na empresa da família, eu não conseguiria emprego em nenhum outro lugar? Bom, eu consegui. Eu estudei, me dediquei, fiz cursos. Agora, trabalho como gerente de um estúdio de tatuagens aqui em São Paulo.
Aliás, vocês nem devem sequer saber que moro aqui, não é? Levando em conta que já se passou um ano e meio desde que eu fui embora e só agora tomei coragem de lhes escrever. O que eu mais quero que vocês percebam é que eu venci. Mesmo vocês torcendo contra, eu consegui vencer. Mesmo com as tatuagens, os alargadores, piercings, enfim. Tudo o que vocês condenaram.
Quantas vezes me senti uma verdadeira perdedora, afinal, vocês sempre frustraram meus planos e vontades. Vocês sempre repetiram incessantemente de que eu não teria futuro. Bom, eu tenho um. E pretendo começar a fazer faculdade no próximo semestre, inclusive. Engenharia.
Eu sempre fui boa em Matemática, embora vocês não saibam. Vocês nunca acompanharam meu rendimento escolar, portanto não sabem que minhas notas também eram as maiores da sala, como as da Clara. Mas eu era a rebelde, lembram? Eu não merecia a atenção de vocês. Vocês nunca foram às reuniões escolares da minha turma, e quando eram chamados, sempre arranjavam um compromisso como desculpa para faltar.
Sabe, vocês me deixavam sempre tão pra baixo que eu queria morrer, sumir do mundo. Me senti, por muito tempo, a ovelha negra da família, uma vergonha. Como naquela música da Rita Lee:
“Foi quando meu pai me disse: filha,
Você é a ovelha negra da família.
Agora é hora de você assumir
E sumir.”
Bom, eu fiz isso, eu sumi. Vocês devem estar felizes com isso, afinal não me procuraram. Nem um SMS, nem um cartão postal, nem uma ligação. Nada.
Enfim, vou terminar essa carta com um apelo: não a respondam. Sei que a resposta seria mais um daqueles sermões de você-não-vive-sem-nós ou você-depende-de-nós-pra-tudo. Eu conseguir fazer minha vida, sem vocês.
Mas ainda assim, vos amo.
Abraços,
Jaqueline Bustamante, a garota que venceu.”
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